Cotidiano

A rede vazia

Rede
Written by Zeneide

Depois da aposentadoria, ele ficava mais tempo em Serra Negra e eu aqui, em S. Caetano, ainda trabalhando no Colégio. Foram anos de Faculdade, namoro, noivado e depois, o casamento dos filhos …

A comunicação era por telefone, quase sempre às 21 horas. Depois que nos modernizamos, falávamos pelo Skype todas as noites. Ele nunca gostou de celular e, quando aderiu, por insistência nossa, não usava… De vez em quando, chuvas, ventanias ou raios nos deixavam sem Internet. Então, ele ligava do orelhão para avisar.

Numa dessas vezes, depois de dois dias, recebi uma mensagem:”Já estou na rede de novo”. Entendi perfeitamente que a comunicação estava restabelecida, mas não pude perder a piada e respondi: “Bonito, hein? Eu aqui fazendo mil coisas e você bem tranquilo na rede…”

Dali em diante, sempre que ele ia descansar um pouco, me dizia: ” Zê, vou ficar on-line agora.”

A velha rede se desgastou, foi substituída e usada com mais frequência à medida que o tempo passava. Quando precisamos retornar a S.Caetano para o tratamento de saúde, o sonho recorrente dele era ir para Serra Negra e ficar on-line, desfrutando a tranquilidade, o silêncio, o aroma dos pinus e o canto das aves. E o cachorro, Negão, que se instalava aos seus pés, sem cerimônia. “Saudade da rede” – dizia.

Por isso tudo foi bem difícil chegar lá de novo. A foto que a Cíntia postou simboliza a síntese dos nossos sentimentos. Revolve a dor como uma faca pontiaguda na ferida aberta. Mas também faz refletir. A rede está vazia, sim, pendurada como algo inútil e sem sentido. Mas, voltará a ser utilizada pelos netos, certamente, que preencherão o silêncio com seus risos e suas brincadeiras inocentes.

‘”Quero trazer à memória o que me dá esperança”- escreveu o profeta Jeremias. No nosso caso, a esperança nasce da gratidão a Deus pela vida dele, pelos seus dons e habilidades e pelos sentimentos embutidos, que transpareciam naquele assobio único e inconfundível.

E em nossa lembrança, a rede nunca estará vazia…

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Zeneide

Meu nome é Zeneide Ribeiro de Santana, professora de Língua Portuguesa e Literatura. Já sou aposentada e aproveito meu tempo lendo bastante e tricotando um pouco.

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