Recordações

Quem não tem cão…

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Written by Zeneide

Início da década de 60. Vida difícil naquela cidade do interior. O jeito era estudar, ralar como se diz hoje, para conseguir um diploma de professora, opção para quem precisava começar a trabalhar logo e não tinha condições para tentar o vestibular numa universidade pública, num local distante.

Estudo, trabalho, esforço, livros emprestados, estudo…  esse era o ritmo para quem gostava de aprender e também, talvez inconscientemente, sentia que precisava se destacar em alguma coisa, já que socialmente não era possível…

Pois bem. Havia o tal Desenho Geométrico que, francamente, até hoje não me serviu para grande coisa. Uma das notas que compunham a média semestral era dada pelo caderno, que deveria estar impecável.

Caprichosa, meus traços eram corretos e limpos. Só que, na manhã seguinte, a professora iria avaliar os benditos cadernos e ainda faltava colorir várias rosáceas entrelaçadas. Mas, cadê os lápis de cor? O vermelho e o azul gastaram-se todinhos na primeira página. Sabia que a combinação de cores era extremamente importante. Mas… e os lápis?

Fui procurá-los na mochila da Zélia, minha irmã mais nova. Só encontrei o amarelo forte e um roxo, além do preto, de desenho. Não havia o que fazer, a não ser combinar do jeito que desse as pobres cores e ir dormir, que já era muito tarde.

A professora ajeitou os cadernos sobre a mesa e foi chamando um por um para devolvê-los com a nota e um comentário. Quando ela pegou o meu, encolhi-me na carteira, desejando desaparecer, para fugir do vexame. De repente, nem consegui acreditar no que ouvia:

-Parabéns! Muita originalidade na combinação das cores!

Mostrou o caderno para a classe e continuou:

– Vejam como ficou lindo esse amarelo contrastando com o roxo! E esse tom de cinza junto ao amarelo ouro! Muito sóbrio e elegante. Você foi bem criativa!

Cinza?- pensei. Tinha pintado a faixa de preto, sem forçar o traço, e esfumaçado com os dedos!

Agradeci mentalmente a Deus e fui, aliviada, pegar meu caderno de volta.

Ouvi dizer que o provérbio correto é: “Quem não te cão, caça COMO gato.”  Isto é, caça sozinho.

No meu caso, soube que não estive caçando só. Com certeza, algum anjo, desses bem arteiros, deve ter ficado rondando por ali enquanto eu pintava…

 

About the author

Zeneide

Meu nome é Zeneide Ribeiro de Santana, professora de Língua Portuguesa e Literatura. Já sou aposentada e aproveito meu tempo lendo bastante e tricotando um pouco.

4 Comments

  • Tem historias que acabo sabendo aqui.Juro que não sabia desta.Talvez vc não me contava para não me frustrar também.
    Oh, infância danada de pobre né? Mas dou tanto valor ao sacrifício que nossos pais fizeram!
    Nos formar para uma profissão tão digna!
    Quanto devemos ter feito para a formação de pessoas que até hj deixamos marcas, não?
    Quanto aos lápis de cor, também tenho uma memória bastante forte.
    Me lembro até hj da primeira caixa de lápis de cor de 36 cores, que eu “babava” nos das minhas colegas e sabia que não podia ter!
    Mas acho que foi uma das primeiras conquistas, por mérito meu, ter ganho esta “bendita” caixa,ainda de lata, lembra, por ter passado em Primeiro lugar na primeira série, com o Professor Otílio, aquele que considerava velho por que estava prá se aposentar.
    Acho que hj séria bem mais novo que eu, pode?
    Agora te digo, aquele anjo arteiro, com certeza era eu, torcendo prá que tudo desse certo prá vc, coisa que faço até hoje.
    bjs.

    • Realmente, só contei isso para a Cíntia, há pouco tempo e depois resolvi escrever sobre essa lembrança. Também valorizo, e muito, o que nossos pais fizeram por nós. Mas essas experiências nos marcaram e nos ajudaram a crescer também. Quanto ao anjo arteiro, acho que é até hoje. O bom é todas nós torcemos umas pelas outras. Beijo

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